Artigos e estudos

A festa dos Tabernáculos e a Igreja de YESHUA

Introdução

Cada uma das festas do calendário judaico possui uma idéia central pela qual a mesma foi criada e dada por Deus. Todas as atividades e costumes que vemos em cada festa foram criados com o propósito de manifestar a idéia de mandamento divino. O calendário judaico esta tão  ligado a religião e ao ciclo agrícola de Israel, que às vezes se torna impossível distinguir estes aspectos dos costumes atuais de tais festas. Tal fato, ou devo chamá-lo de mistério, é o que torna as festas e feriados judaicos únicos e especiais tanto para o judeu secular como para o religioso ; mas especialmente para o cristão.

Aqui estão algumas razões especiais que fazem das festas judaicas importantes e necessárias, tanto para o judeu que crê em Yeshua como o Messias, como para o Cristão. O judeu que vem para Yeshua nos dias de hoje vem , na maioria das vezes, de lares seculares. Ele às vezes sente-se estranho com relação à tradições judaicas e tradições cristas. Ele precisa conectar-se novamente com sua hereditariedade judaica . Existem judeus que quando se tornaram cristãos, decidiram por não mais guardar nenhum tipo de relacionamento com sua hereditariedade judaica, mas que mais tarde viram a carência da Igreja com relação à suas raízes judaicas e até começaram a ensinar as pessoas da beleza do lar judeu, das festas e das tradições e costumes judaicos.

Os judeus têm um mandamento divino para viverem e permanecerem como uma nação distinta. A ferramenta que manteve e continua mantendo os judeus como uma nação são as suas festas. Estas não são tradições criadas por homens. As festas judaicas são as únicas, entre todas as nações, que foram ordenadas pelo próprio D’us. Não existe nada relatado no Novo Testamento que possa anular ou comprometer o cumprimento de tais festas pelos judeus messiânicos da época. Alem disso, alguns estudiosos crêem que todo o evangelho de João foi escrito como sendo um único estudo para ser lecionado em  3 anos,  feito para a primeira Igreja Cristã-Judaica do I séc d.C. As festas então são muito importantes  para os judeus pois ajudam a mantê-los distintos como nação  e como povo escolhido e separado para D’us. Elas também são importantes para os Cristãos gentílicos pois servem como base  para se entender melhor as raízes de sua fé, aproximando judeus e gentios crentes, excluindo a barreira cultural e espiritual que os separam. Estas mesmas festas dão para o Judeu Crente e para os Cristãos um relacionamento histórico especial e também dimensionam a genuína necessidade de tais tradições bíblicas estarem presentes em toda a Igreja de Cristo (judeus e gentio).

De um ponto de vista evangelístico, o texto de Paulo em ICo 9:18-20 não só demonstra  respeito às heranças judaicas do povo judeu, [“(...)aqueles que estão sobre a lei, eu também me coloco como se estivesse sobre a lei”], mas  inclue também o guardar e a completa participação em tais tradições e heranças por parte da igreja do 1° Século.

Já que estamos na época da Festa de SUCÔT  (Tabernáculos), ou “tendas” no hebraico, existem alguns argumentos importantes que retratam a importância e a riqueza das tradições desta festa, tanto para judeus como para Cristãos (lembrando que os crentes gentios foram enxertados na oliveira, a qual é Israel, e por isso têm acesso às bênçãos das Festas judaicas):

  1. Segundo a doutrina Rabínica, é visto na Sucá (tenda) um símbolo da eminente presença de D’us mesmo no mais humilde lar de Israel. Eles também defendem que a Sucá representa nossa vida aqui na Terra, a qual é temporária e insegura, fazendo-nos lembrar das mansões que nos aguardam nas regiões celestes.
  2. D’us ordenou aos judeus para irem para fora de suas casas e construírem eles mesmos tendas (sucôt) durante a temporada em que seus celeiros estão cheios e a colheita abundante. Isto D’us ordenou para que o coração dos homens não se vanglorie após o sucesso da colheita e do vigor do campo (ou saúde da Terra). É na verdade, um lembrete a todos que nossa riqueza (ou herança) não está  e não provem deste mundo. Durante o exílio, Israel não possuía nenhuma riqueza ou terra; mas mesmo assim, o Senhor andou entre eles e os alimentou todos os dias durante 40 anos. Este feito deve fazer as pessoas confiarem mais em D’us e estarem preparadas para enfrentar situações em que possam perder suas terras, seus campos e suas riquezas e mesmo assim se apresentarem diante de D’us com graça e gratidão.
  3. Um outro fator que os judeus ortodoxos chamam a atenção do povo é que a festa de Sucôt foi ordenada para começar exatamente no início do período de Chuva do Oriente médio. Primeiro, nós habitamos na sucá num período em que as condições climáticas não estão claras ou definidas. Segundo, durante o outono, quando começa a chover e a ficar frio, é esperado que Israel demonstre sua devoção a D’us. Num período em que todas as pessoas estão concertando e reparando suas casas para suportarem a chuva e o vento, Israel constrói tendas, fazendo com que as estrelas  sejam vistas através do telhado.
  4. Os rabinos também vêem na sucá um símbolo da renovação escatológica de Israel. Na verdade esta também é a maneira como os Apóstolos interpretaram a passagem de Amós 9:11 quando eles a mencionam em Atos 15. Na oração de graças após as refeições, existe a referencia: “O D’us da misericórdia ira reerguer o tabernáculo caído de Davi”. Esta é uma referência ao reino messiânico que todo judeu aguarda ansiosamente.

O que ainda não foi revelado ao povo judeu (notem que não os condeno por tal posição) é que a restauração do Tabernáculo de Davi é algo espiritual e não físico. O Tabernáculo de Davi, como mencionado em Atos 15:14, representa o veículo pelo qual D’us habitaria novamente entre os homens. Yeshua foi e é tal veiculo para a habitação de D’us entre os homens. Seu nome e Emanuel: “D’us habitando entre nós”, ou traduzido do hebraico: D’us tabernaculando entre nós! O verbo habitar em hebraico nessa passagem é “Lishkon” = habitar ;  e a palavra em hebraico para Tabernáculo é Mishkan” = habitação . A raíz do verbo é  “Shkân”, e podemos ver sua utilização também na palavra “Shechiná” que significa  “a eminente presença de D’us!”. A restauração do “Tabernáculo de Davi”, ou seja, Yeshua realizando a obra da cruz , tem como objetivo também o que o profeta Amós relata no cap 9 ver 11 de seu livro e que também  Tiago menciona no cap 15 ver 17 do livro de Atos: “(…)Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios, sobre os quais o Meu nome e invocado, diz o Senhor que faz todas estas coisas”. Por isto o sacrifício de Yeshua é algo universal e não apenas restrito ao povo Judeu . Haleluia !!

As quatro espécies.

A Torá  ordena ao povo judeu que durante a celebração de Tabernáculos, deve-se ter 4 espécies de ramos (Lv.23:40): “E ao primeiro dia tomareis para vos ramos de formosas arvores, ramos de palmeiras, de  arvores espessas e salgueiro de ribeiras e vos alegrareis perante o Senhor por 7 dias.”

  1. Os diferentes tipos de árvores representam os diferentes tipos do povo de Israel. O uso das 4 espécies é um típico exemplo de narrativa judaica, que Yeshua usou na parábola da semeador em Matheus cap 13.
  2. Existem aqueles que têm frutos como a Cidra e a Palmeira, e aqueles que apenas tem o cheiro do fruto como Mirto. Isto nos ensina sobre responsabilidade e a camaradagem e compaixão entre o povo de Israel e os demais povos.
  3. Um outro argumento rabínico mostra que cada espécie representa uma parte do corpo. A citra e  como o coração . A Luláv é como a coluna dorsal. O ramo de  Mirto é como os olhos, e é um indicio de que não se pode ser levado ao comportamento imoral através da visão de nossos olhos. O salgueiro é como os lábios: os lábios devem ter santidade no falar .
  4. Um fato interessante é que nestas quatro espécies estão costumes antigos que são refletidos no contexto bíblico . Em IISm 6:5, encontramos Davi e seu servo apanhando ramos e os agitando em um tipo de ritual de celebração da vitória. Também na entrada triunfal de Yeshua em Jerusalém vemos o povo O proclamando como rei agitando ramos de arvores(Mt 21:8).

Do ponto de vista do Novo Testamento, temos o grande discurso de Yeshua em João cap.7. Este discurso aconteceu durante a festa dos Tabernáculo em Jerusalém . Em João 7:13 temos Yeshua no Templo durante a metade da festa. No  verso 37 temos Yeshua dando um dos seus mais importantes ensinamentos no Templo no ultimo dia da festa. Este ultimo dia é provavelmente o dia de Simchá Torá, ou Simchá beit HaSoevá. Os temas que Yeshua trata durante este discurso estão todos presentes na celebração de Sucôt. Como exemplo destes temas temos :

  1. Água viva – Simchát Beit HaSoevah
  2. Unidade e divisão entre o povo
  3. Semente do rei Davi e redenção
  4. A dádiva do Espírito Santo

E importante lembrar que durante toda a festa de Sucôt os rituais com água estavam presentes. A água era usada como instrumento de celebração e alegria (Is 12:3).  Mas no último dia da festa, ocorria uma tradição muito esperada por todos: o sacerdote do templo se dirigia até a chamada fonte de Siloé, e de lá recolhia água em uma bacia de ouro . O sacerdote então se dirigia ao Templo seguido por uma multidão que cantava e glorificava a D’us. No templo, o sumo sacerdote derramava a água aos pés do altar simbolizando a oração do povo pelas chuvas. Neste momento, levitas tocavam o shofar e o povo segurando folhas de palmeiras e a Luláv  nas mãos proclamavam em alta voz: “ Adonai Hoshia!” ,“Hoshanah!” – “Senhor salva-nos e nos faça prosperar !” rodeando o altar sete vezes. Yeshua presente no templo neste momento, e vendo tudo isto, se dirige a multidão e proclama em alta voz: “Se alguém tem sede , venha a mim e beba ! Quem crer em mim , como diz as escrituras , rios de água viva correrão do seu interior !” Jo 7:37,38

Os sacrifícios que eram oferecidos no templo por outras nações também demonstravam algo único e importante para ensinar a Israel sobre a universalidade de D’us e de Seu Reino. Tanto tempo e atenção são dados a Israel em particular que facilmente se esquece da universalidade da Palavra de D’us e da Fé de Israel. Do ponto de vista judaico, existem setenta nações e setenta línguas diferentes em todo mundo. Durante a festa de Sucôt, 70 oferendas especiais eram preparadas no Templo. Uma para cada nação. Isto é um grande aspecto para a celebração de Sucôt por todo o Corpo de Cristo.

Sucôt também era considerada a festa do final do Julgamento de D’us. Rosh Hashaná dá início ao ciclo do dia julgamento, Yom Kipur é o inicio do dia do julgamento, e ao final de Sucôt tem-se o final do ciclo de Julgamento. Segundo alguns estudiosos, isto explica o texto de Zacarias 14, que obriga as nações a irem à Jerusalém e celebrar a festa de Sucôt: “E ao final do dia de Julgamento, se as nações não estiverem presentes, e não celebrarem com Israel, não serão abençoadas por D’us”.

Devemos agora voltar a questão dos Judeus Messiânicos e dos Gentios Cristãos. Devem os Judeus que acreditam em Yeshua celebrar as festas judaicas? Sim! Os judeus messiânicos devem celebrar as festas pois:

  1. O Senhor os ordena a guardar as festas como estatuto perpétuo.
  2. As festas são responsáveis pela preservação da distinção de Israel e seu povo como nação escolhida e separada para D’us. União entre os judeus.
  3. O judeu não deixa de ser judeu por acreditar em Yeshua .
  4. Yeshua e seus discípulos celebravam as festas.

Porque a Igreja Gentílica  pode Celebrar as festas se assim desejar ?

  1. Yeshua e os discípulos celebravam tais festas.
  2. Todas as tradições e os simbolismos das festas retratam ensinamentos profundíssimos a respeito de D’us e principalmente de Yeshua .
  3. Através do entendimento de tais festas e tradições , temos oportunidade de conhecer mais a respeito da historia e das raízes judaicas da nossa fé .
  4. Celebrando as festas, contribuímos para a unidade entre a igreja de Yeshua: Judeus e Gentios. Dessa maneira, nos aproximamos mais do povo judeu excluindo a barreira cultural e espiritual que nos separa.
  5. A palavra de D’us nos mostra que no futuro todas as nações virão a Israel para celebrar as festas. Porque não podemos celebrá-las desde agora ?
  6. Somos ensinados na palavra de D’us para “chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram”. As festas são dias de celebração da nação de Israel. Porque não nos alegrarmos com o povo de D’us?
  7. As Igrejas gentílicas no primeiro século celebravam as festas do Senhor, para se santificarem e promoverem a união entre “gregos e judeus”.

Tudo façamos, sem medir esforços, para a implantação do Reino de D’us na Terra e para a restauração da Igreja do Mashiach Yeshua.

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Autor:

Descendente de Judeus italianos que imigraram para o Brasil no século passado, Matheus é graduado em Comunicação Social e em teologia com ênfase em Estudos Judaicos (EUA). Matheus foi também mestrando em Estudos Judaicos pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Formou-se em hebraico e arqueologia bíblica em Israel, atuando como professor na Congregação Har Tzion por mais de 15 anos. Criador do site www.escoladehebraico.com, um portal para ensino do Hebraico Bíblico e Cultura judaica que já formou mais de 2000 alunos no Brasil e no mundo. É também cantor e compositor, sendo fundador do Ministério Hallel – Louvor e Adoração Judaico-Messiânico. Atualmente é vice-presidente do Ministério Ensinando de Sião – Brasil e diretor do CATES (Centro Avançado de Teologia Ensinando de Sião).