O Contexto Descontextualizante | Ensinando de Sião

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O Contexto Descontextualizante

Um certo índio, membro de uma das tribos ainda sem contato com o homem branco, possuía uma missão especial. Em sua tribo, ele era um dos responsáveis por preparar o alimento. Em especial, sua tarefa era esquentar a água a ser utilizada no preparo dos extratos e sumo de raízes. Para realizar tal responsabilidade, ele utilizava folhas muito finas de uma planta da região, dobradas e amarradas formando uma espécie de concha. A água era colocada dentro deste recipiente feito de folhas e este era levado ao fogo. Quando a água começava a ferver, ele a levava para outro índio, que já estava com sua mistura pronta, aguardando a água quente. Assim, a comida era preparada e todos da tribo se alimentavam com fartura.

Mas um certo dia, uma equipe de pesquisadores chegou de súbito em visita à comunidade indígena. Foi uma grande surpresa para todos os índios, pois nunca haviam visto outros homens fora de seu próprio grupo. Apesar do estranhamento inicial, o grupo de pesquisadores foi bem recebido, tendo recebido permissão do cacique para permanecer no local observando os nativos. Após alguns meses de contato e já tendo o domínio da língua da tribo, um dos pesquisadores, físico e antropólogo, acompanhou o índio responsável por esquentar a água em sua tarefa diária. Vendo o mesmo esquentando a água na fina folha, indagou-o: “Você nunca se perguntou por que a folha não se queima quando levada ao fogo?”. O índio respondeu: “Faço minha tarefa desta forma, pois assim faziam meus antepassados, mas não sei por que a folha não se queima quando levada ao fogo”. O professor de física assentou-se com o índio e propôs explicar-lhe o porquê deste fenômeno, com o intuito de ajudar o nativo a implementar sua tarefa, tornando-a mais eficaz. O professor contou-lhe sobre as propriedades físicas e químicas da folha, da água e do fogo, explicando como a água fria em contato com a folha, mantinha a temperatura da mesma constante, longe de seu ponto de fusão. O índio aprendeu conceitos sobre termodinâmica, ponto de fusão e ebulição, pressão de vapor, dentre muitos outros. Ele tanto se maravilhou por entender o mecanismo que impedia a folha de pegar fogo que começou a ensinar a outros índios também. Seus amigos se maravilhavam com tamanha sabedoria, ao ver como o cozinheiro passou a entender o contexto do ato realizado por ele há tantos e tantos anos.

Mas o que foi realizado pelo professor de física com o intuito de ajudar o índio em sua tarefa diária, veio a prejudicá-lo grandemente. Não só a ele como também à sua tribo. O entendimento do fenômeno físico foi algo tão fascinante que a simples tarefa de esquentar da água perdeu a importância. Tanto o índio cozinheiro, quanto aqueles que lhe ouviam as maravilhas aprendidas, passaram a se considerar mais importantes, mais nobres que os outros índios. Rapidamente se separaram do restante da tribo, passando horas e horas apenas discutindo sobre os processos de termodinâmica e temperaturas de ebulição e fusão. Eles anunciavam seu conhecimento como sendo extremamente necessário para o restante da tribo e até repudiavam os que não lhe davam atenção ou desprezavam seu novo conhecimento.

Isto gerou sérios problemas na pequena e isolada sociedade tribal. O índio que esquentava a água se maravilhou tanto em entender o processo de não combustão da folha, que deixou de realizar a dita tarefa. Ele só queria gastar tempo ensinando a outros sobre o maravilhoso fenômeno, e a tribo não tinha mais água quente para preparar seus alimentos. Ninguém mais da tribo sabia preparar o recipiente de folhas, muito menos esquentar a água na temperatura certa para ser utilizada no preparo dos alimentos.

Assim, o conhecimento revolucionário e importante do índio, que deveria servir para aperfeiçoar sua tarefa (talvez o levando a escolher um material de maior condução térmica, por exemplo), veio a desviar-lhe da sua tarefa, prejudicando e dividindo toda a tribo. É claro que o “know how” do índio cozinheiro era algo especial e necessário, mas se este “know how” tivesse sido devidamente utilizado para melhorar seus serviços à tribo, todos veriam que este novo conhecimento serviria para o bem geral e desejariam aprendê-lo com grande anseio. A quem poderíamos atribuir o erro primordial? Ao professor de física, que não enfatizou que o novo conhecimento deveria servir para o bem da comunidade, beneficiando primeiramente a tarefa do índio cozinheiro? Ou ao próprio índio, que tanto se maravilhou entendendo o contexto que se esqueceu do próprio “texto” (sua tarefa de esquentar a água)?

Bem, se você teve paciência de ler este texto até este ponto, considere-se merecedor de receber meu humilde manifesto. Meu intuito com este exemplo banal e simplório visa explanar um grande problema vivido atualmente no seio do movimento Judaico Messiânico, ou movimento da Restauração das Raízes da Fé. Como um de seus idealizadores e fundadores em meu continente, sinto-me na posição propícia para realizar este ensaio revelador e extremamente oportuno. Sinto-me também preocupado e até mesmo um pouco desmotivado, ao vislumbrar o rumo que alguns líderes e comunidades nominalmente ligados a este movimento têm tomado. Rumo este que é responsável por muitos problemas e desvios no Reino e no Corpo do Messias, no Brasil e em outros países.

Meu pai, o rabino messiânico Marcelo M. Guimarães, sempre diz que “um homem inteligente não deixa que a atenção às vírgulas roube-lhe o contexto das palavras”. É claro que este tão importante sinal de pontuação tem seu merecido valor na elaboração que qualquer texto, inclusive este. Mas o que meu pai quis dizer com este provérbio de próprio punho era que pessoas que demasiadamente se entrincheiram nas entrelinhas e no contexto, acabam perdendo a visão geral do próprio texto. O contexto deve auxiliar-nos a entender o texto, e não tomar-lhe o lugar.

É dessa forma vejo o tesouro precioso legado pelos pioneiros do movimento judaico messiânico, em especial ao movimento de Restauração. Estes, judeus em sua maioria, representam o prelúdio do que acontecerá no futuro, onde a “lei sairá de Sião e a palavra de Deus de Jerusalém”. Percorrem vários países ministrando em inúmeras denominações sobre o contexto das Sagradas Escrituras, visando ajudar a Igreja a entender e vivenciar melhor a fé. A Igreja há dois mil anos tem o texto. Os judeus há três mil anos possuem o texto e o contexto. Não há como a Igreja entender os Escritos Sagrados de Israel (entre estes incluídos os livros do Novo Testamento), sem o contexto precioso legado pelos filhos de Israel. Métodos interpretativos, lógicas de estudos, correlações de passagens, informações históricas e culturais, doutrinas inspiradoras, correntes de pensamentos, etc., representam uma pequena fração do contexto judaico das Escrituras. Quem lê um texto sem ter o contexto, lê apenas meio texto. A outra metade é preenchida com o que o leitor bem entender.

Os judeus messiânicos, membros da Igreja e irmãos na fé, têm procurado auxiliar a Igreja a entender o contexto de sua missão, de seu chamado, de sua existência e de sua fé. É necessário quebrarmos fortes e resistentes dogmas fundamentados em contextos estranhos à veracidade bíblica. Só o contexto verdadeiro e original pode retirar as escamas dos olhos dos líderes eclesiásticos de nossos dias, ajudando-os a viver a experiência das Escrituras de maneira plena e eficaz.

O problema é que muitas igrejas, grupos e pessoas que têm acesso ao contexto, ou que adentram o movimento Judaico Messiânico, têm deixado de cumprir o texto. Como o índio de nossa estória, se maravilharam tanto em conhecer o hebraico, os midrashim, os estudos de famosos rabinos, os comentários talmúdicos e os símbolos e ornamentas do judaísmo, que se esqueceram de cumprir os básicos e simples requisitos das Escrituras. Vida santa, separada, exemplo para a sociedade, não é mais tão importante assim. Vida familiar saudável, onde cônjuges amam-se com o amor de Cristo e os filhos são fontes de bênção para outras famílias, não é mais prioridade. Ser irrepreensível aos olhos da sociedade, tendo obras que reluzem e induzem outros a servirem a Deus, não mais importa. Evangelizar e anunciar as Boas Novas a toda criatura, dando bom testemunho de uma vida de arrependimento e obediência a Deus e à Sua Palavra, não é mais o chamado maior. O que importa agora é o quanto da sabedoria judaica é conhecida, como os ritos mais bizarros criados por comunidades judaicas há anos luz da sobriedade bíblica eram e são realizados até hoje. O que é nobre e digno de honra por muitos destas comunidades é fazer aula de hebraico moderno (ainda que se pague caro a professores da comunidade judaica local e mesmo após anos de aulas ninguém fale nada!), citar dois ou mais comentários talmúdicos na pregação (mesmo que nunca se tenha colocado às mãos em um verdadeiro exemplar), embrenhar-se em livros sobre o judaísmo e cultura judaica (ainda que se acredite que alguém consiga aprender sobre uma cultura ou sobre uma religião apenas por livros), citar nomes de cidades e personagens da Bíblia no hebraico original (ainda que ninguém dos ouvintes saiba do que se trata), além de outras práticas carregadas de grande paradoxo.

Deixo claro que não sou contra o uso saudável e idôneo das ferramentas de contextualização citadas acima, até porque faço uso de quase todas em meu exercício ministerial. Mas jamais deixaria que nenhuma delas fosse mais importante ou me impedisse de cumprir o fundamental papel como Judeu e como discípulo de Jesus: ABENÇOAR E SER LUZ PARA AS FAMÍLIAS DA TERRA. Porque sendo santo, vivendo uma vida separada para Deus, dando bom testemunho aos de fora de minha comunidade da fé, provendo minha vida de boas obras, manifestando os frutos do Espírito, amando a Deus sobre todas as coisas e ao meu próximo como a mim mesmo, estou sendo LUZ e contribuindo para a Salvação dos que estão ao meu redor. Isto, caros irmãos, é o mais importante. Esses fatores me qualificam como o Bom e fiel servo, cuja palavra anda alinhada à prática, e o testemunho ao conhecimento adquirido. O contexto e a sabedoria judaica deveriam servir como um catalisador, uma enzima que acelera e aperfeiçoa a reação de implantação destas exigências básicas em minha vida, enriquecendo meu conhecimento e, por conseqüência, melhorando a qualidade do meu viver em Cristo.

O famoso rabino Shaul, também conhecido como apóstolo Paulo, chegou ao ponto de afirmar que estaria disposto a abrir mão de sua própria salvação em prol da salvação de alguns de seus irmãos judeus. Esta deve ser nossa maior motivação, nosso tônus vital. Nossos atos, nossas palavras, nossos artigos e livros devem ter como motivação final a SALVAÇÃO de vidas ainda escravizadas pelo inimigo de nossas almas. Muitos, ao entrarem para o movimento Judaico messiânico, vêem as práticas bíblicas e judaicas como um “alvará de liberação” das obrigações do verdadeiro servo de Deus. Antes, evangelizavam a cada esquina, no ônibus, na padaria, na praça e até mesmo no banco. Não bebiam álcool de qualquer espécie em restaurantes ou festas, pois eram conscientes da contextualização pecaminosa e carnal que este elemento (na forma principalmente da cerveja e bebidas destiladas) assumiu em nossa cultura. Mas agora, na Congregação Judaico Messiânica, vêem os judeus celebrando a ceia com vinho e usam isto como pretexto para a embriaguez em suas casas ou em atividades com outros “irmãos” da congregação. Não falam mais da cruz ou do plano de salvação de Deus através de Israel e seu messias. Antes, perdem tempo apresentando aos outros as belezas ocas de um judaísmo contemporâneo sem vida e falido. Vestiam-se de maneira ponderada e eram bem vistos por todos, mas agora utilizam-se de ornamentas judaicas e símbolos de Israel de forma errônea e descontextualizada, trazendo confusão tanto a judeus quanto a irmãos de outras igrejas, resultando em uma grande demonstração de desrespeito às tradições e à cultura judaica. Como se não bastassem os exemplos supra citados, ainda temos o típico caso da pessoa que, uma vez participante de uma congregação judaico messiânica, simplesmente decide tornar-se judeu sem nenhuma prova ou conhecimento de descendência judaica, caindo no ridículo perante a sociedade e indo contra um mandamento explícito das Escrituras Sagradas. Isto só prova que o mais importante para estas pessoas não é Deus ou Seus mandamentos, mas sim seu próprio ego.

O Judeu messiânico e membros de congregações judaico messiânicas devem ter em mente que o fato de ser judeu messiânico ou pertencer a uma congregação messiânica traz em si uma grande responsabilidade frente ao Corpo de Cristo. Por termos acesso ao CONTEXTO, temos que ter o TEXTO vivo em nós, ou seja, devemos ter o cumprimento básico e as exigências primordiais das Escrituras em PLENA ATIVIDADE em nossas vidas. Temos obrigação de darmos um melhor testemunho, de termos uma vida mais santa, de ganhar mais vidas para Yeshua e para o Reino e de vivermos mais no poder do Evangelho do que nossos irmãos que ainda estão distantes das bênçãos de Israel. Deveríamos ter mais curas, vivenciar mais milagres e vermos mais o poder de Deus, do que os que ainda não conhecem a “seiva da oliveira”. De outra forma, esta seiva será vista por nossos irmãos de fora apenas como algo gorduroso, calórico e tóxico, que não tem produzido outro efeito senão engordar o ego e aumentar a inércia, a soberba e o sectarianismo destes que se dizem restauradores das raízes, mas não conseguem nem restaurar a si próprios. Julgue, pense, acorde e aja! A Igreja precisa de um Movimento Judaico Messiânico sóbrio, autêntico, verdadeiro e EFICAZ. Temos que restaurar nosso próprio movimento para sermos agentes de restauração entre nossos irmãos. Seja, antes de tudo, BÊNÇÃO PARA AS FAMÍLIAS DA TERRA, e LUZ PARA AS NAÇÕES. Esta é a essência do Judeu Messiânico e do movimento de Restauração. Este é o chamado maior de todo judeu e de todo discípulo do homem de Nazaré.

Autor:

Nascido em 1977, Matheus é descendente de Judeus com origem na Itália e em Portugal. É graduado em Comunicação Social (PUC-MG) tendo também estudado teologia com ênfase em Estudos Judaicos (EUA) e Hebraico e Cultura Judaica (Israel). Atua como professor na Sinagoga Har Tzion, em Belo Horizonte, desde 2001. Atualmente, é vice-presidente do Ministério Ensinando de Sião – Brasil, diretor do CATES (Centro Avançado de Teologia Ensinando de Sião), da TVSIAO.COM e um dos líderes da Sinagoga Har Tzion. Matheus é casado com Tatiane e tem dois lindos filhos, Daniel e Benjamin. (facebook.com/mzandonna)

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