Onde está a Arca da Aliança? | Ensinando de Sião

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Onde está a Arca da Aliança?

Por Matheus Z. Guimarães

 

Um dos maiores desejos de arqueólogos de várias partes do planeta e de várias épocas da história é descobrir o paradeiro da Arca da Aliança. Ao longo da história moderna, várias foram as notícias sobre a descoberta da localização da Arca, mas nenhuma delas pode comprovar sua veracidade. É interessante notar que o desejo audaz de se encontrar a Arca da Aliança não é tão presente na comunidade judaica mundial. Cristãos, muçulmanos e até mesmo nazistas já desembolsaram milhões de dólares em pesquisas e expedições, mas a comunidade judaica parece encarar o fato do desaparecimento da Arca como sendo resultado da soberania de D-us. Mas qual é o verdadeiro interesse em se encontrar a Arca da Aliança? Será que ela ainda existe, ou está aguardando ser encontrada?

 

Na Torá (Ex 25:10-22) temos a descrição de uma espécie de baú (Arôn, em hebraico), que deveria conter o “Testemunho”  – edut – literalmente “prova”, ou seja, objetos usados para se comprovar algum fato. Por isso, os objetos determinados por D-us para estarem dentro da Arca serviam como “prova” da Aliança de D-us com o povo de Israel: As tábuas da Aliança – simbolizando a Aliança de D-us com Israel por intermédio da Torá; – Um pote com o Maná do deserto – simbolizando o poder milagroso de D-us e seu sustento para com a nação de Israel;  e o Bordão de Arão – que representava a escolha da tribo de Levi e da Descendência de Arão para o exercício do sacerdócio (Hb 9:4).

 

Durante os dias de Moisés e de Josué, a Arca era conservada no Tabernáculo e utilizada em serviços de Adoração. Na travessia do deserto, os sacerdotes a levavam à frente do povo e em algumas batalhas. Ela testemunhava para as outras nações e povos inimigos que o D-us criador dos céus e da Terra possuía uma aliança com o povo de Israel.  Nos dias dos juízes ela se encontrava na cidade de Silo (Shilo – 35Km ao norte de Jerusalém), onde o Tabernáculo foi fixado (Js 18:1). Após ter sido roubada pelos filisteus, a Arca segue para a cidade de Beit-Shemesh e em seguida para Quiriat-Iearim (ISm 6 e 7). Lá ela é entregue a Eleazar, filho de Abinadabe. A casa de Abinadabe fica então responsável pela preservação da Arca. Já nos dias de Davi, o Rei decide por trazer a Arca para Jerusalém, deixando-a na casa de Obede-Edom, um levita da casa de Corá (IISm6:1). O Rei Salomão se encarrega de levar a Arca para o interior do Templo durante a Festa dos Tabernáculos, ao local chamado em hebraico de “Kodesh Há Kadashim” ou Santo dos Santos (IICr 5:2-14). A Arca então permanece no Templo até a invasão de Jerusalém por Nabucodonozor, em 586 a.C. Na ocasião da invasão, o Templo de Salomão é destruído, e grande parte dos utensílios tomados como despojo.

Moisés e Josué se prostram diante da Arca da Aliança - Pintura de James Tissot.

Moisés e Josué se prostram diante da Arca da Aliança – Pintura de James Tissot.

A partir daí especula-se sobre o paradeiro da Arca. Sabe-se que a Arca não foi recolocada no Santo dos Santos durante a reconstrução do Templo por Esdras e Neemias. Quando o imperador Antíoco Epífanes, no século II a.C, invade e profana o Templo em Jerusalém, ele nada encontra no Santíssimo lugar.  Grande parte dos estudiosos bíblicos acredita que a Arca da Aliança foi destruída durante a invasão Babilônica. Mas alguns rabinos, baseados em documentos antigos como a Mishná, crêem que os sacerdotes esconderam a arca pouco antes da invasão de Jerusalém, e que a mesma foi mantida escondida mesmo com o Segundo templo reconstruído, visando preservar sua integridade.

 

A Mishná (Lei Oral agregada e compilada pelo Rabino Yehuda Há Nissi no séc. II d.C), contém os relatos mais confiáveis sobre a localização da Arca. A Mishná, depois acrescida da Gemara, seu comentário, deu origem ao Talmud. O texto a seguir foi retirado da Mishná, tratado Shekalim 6:

 

“Era costume se prostrar diante da Arca 13 vezes no santuário. Mas a família do rabino Gamaliel e o Rabino Ananias, o sumo sacerdote, se prostravam 14 vezes, sendo a última vez diante da “pilha de madeira” (*1), pois de acordo com a tradição de seus pais, a Arca da Aliança estava escondida ali (*2). Uma vez, um sacerdote que estava orando no local viu que uma pedra do pavimento estava diferente das outras (*3). Ele correu para contar aos outros sacerdotes e antes de terminar sua fala, caiu morto. Então se teve certeza de que a Arca da Aliança estava escondida ali.”

(1) O termo “Pilha de Madeira” se refere ao compartimento onde se guardava madeira para ser usada no altar. Tal compartimento se localizava no Pátio das Mulheres e tinha cerca de 18 m².

(2) Segundo a Mishná, antes de Nabucodonozor destruir o Templo em 586 a.C, a Arca da Aliança foi retirada dali pelos sacerdotes e escondida.

(3) Esta pedra era removível. Ela cobria a entrada de um túnel de 33km que se estendia do Templo até Qumram, nas proximidades do Mar Morto. Este túnel existe até os dias de hoje, mas é inaccessível.

 

Mas se a comunidade judaica tem conhecimento da localização da Arca, porque não tenta recuperá-la? A resposta é simples: os rabinos dizem que nos temos dos Reis, a Arca se tornou um substituto para D-us. Ao invés de orarem a D-us, os israelitas depositavam sua confiança na Arca, fazendo dela um amuleto. Nestes aspectos, a Arca se tornou um ídolo para os hebreus. D-us é único, e tudo o que se coloca entre Ele e o adorador se torna uma ofensa para o Criador. “Se D-us a tirou de nosso meio, é melhor que continue assim”, dizem os rabinos do Instituto do Templo em Jerusalém, “Ele sabe o que faz”.

Interior da Arca da Aliança contendo as tábuas da Lei, o Maná e o bordão de Arão - Réplica do Tabernáculo em tamanho real em Timna - Deserto do Negév - ISRAEL.

Interior da Arca da Aliança contendo as tábuas da Lei, o Maná e o bordão de Arão – Réplica do Tabernáculo em tamanho real em Timna – Deserto do Negév – ISRAEL.

É interessante nos lembrarmos que as profecias sobre a reconstrução do Templo (Ez 40) não listam a presença da Arca da Aliança entre os utensílios. Além disso, o profeta Jeremias, ao profetizar sobre o milênio, afirma que a Arca da Aliança não poderá ser reconstruída: “…nunca mais se exclamará: A Arca da Aliança do Senhor! Ela não lhes virá a mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão falta; e não se fará outra.” Jeremias continua exortando os Israelitas quanto à idolatria ao Templo e a Arca: “Não confieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este.” (Jr 7:4).

 

Em 1992, utilizando-se de sismógrafos e sensores de rádio, os professores Tzvi Ben Avraham e Uri Basson, da Universidade de Tel-Aviv, investigaram o túnel de 33km entre Jerusalém e Qumran. Eles descobriram objetos e compartimentos no decorrer do túnel, mas não puderam confirmar se tais observações representavam a Arca. Uma vez que é impossível adentrar o túnel sem que ele desmorone, a localização da Arca da Aliança continua um mistério.

Autor:

Nascido em 1977, Matheus é descendente de Judeus com origem na Itália e em Portugal. É graduado em Comunicação Social (PUC-MG) tendo também estudado teologia com ênfase em Estudos Judaicos (EUA) e Hebraico e Cultura Judaica (Israel). Atua como professor na Sinagoga Har Tzion, em Belo Horizonte, desde 2001. Atualmente, é vice-presidente do Ministério Ensinando de Sião – Brasil, diretor do CATES (Centro Avançado de Teologia Ensinando de Sião), da TVSIAO.COM e um dos líderes da Sinagoga Har Tzion. Matheus é casado com Tatiane e tem dois lindos filhos, Daniel e Benjamin. (facebook.com/mzandonna)

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