Quem me ama, guarda os meus mandamentos | Ensinando de Sião

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Quem me ama, guarda os meus mandamentos

Por Matheus Zandona Guimarães

A palavra em hebraico para Mandamento é  מִצְוָה (Mitzvá). Ela vem da raíz צִוָּה  “tsivá”, que significa “comandar”, mas também “direcionar” e/ou “apontar”. Nas Escrituras, os “mitzvôt” (mandamentos) referem-se aos 613 mandamentos prescritos, dos quais 248 são mandamentos positivos (Mitzvôt Taassê – mandamentos sobre o que se fazer) e 365 são negativos (Mitzvôt lô Taassê – mandamentos sobre o que não se fazer). É como se através de sua guarda e estudo, os mandamentos nos “apontassem” em direção ao  Eterno. Eles nos revelam D-us e Seu caráter, e nos fazem vivenciar uma realidade celestial com princípios divinos e insondáveis, aqui mesmo em nosso dia-a-dia.

Já dizia um sábio judeu: “Os Mitzvôt foram criados por D-us para serem cumpridos, e não apenas estudados”. É interessante notar que em alguns meios cristãos (e também judaicos), muitos desconhecem o aspecto CONDICIONAL das Escrituras. As palavras de D-us e de Seu Filho Yeshua sempre enfatizam o “SE”, ou seja, “se” formos fiéis aos mandamentos do Senhor, então ele nos abençoará. A partícula condicional “se” aparece 1596 vezes nas Escrituras.  Vejamos apenas alguns exemplos: “(…) SE deres ouvidos à voz do Senhor, teu D-us, guardando os seus mandamentos (mitzvôt) e os seus estatutos, escritos neste livro da Lei, SE te converteres ao Senhor, teu D-us, de todo o teu coração e de toda a tua alma (…), ENTÃO viverás e te multiplicarás, e o Senhor, teu D-us, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la.” (Dt 30:10,16). E ainda: “(…) SE o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, ENTÃO, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.”(2Cr 7:14).  Outro exemplo clássico citado por cristãos de todas as denominações é este: “ (…) e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8:32). Mas as pessoas se esquecem que Yeshua estabelece uma condição, um “SE” para que a verdade possa nos libertar; vejamos o verso anterior: “SE permanecerdes na minha palavra (obediência), sois verdadeiramente meus discípulos; ENTÃO conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (Jo 8:31).

A Torá (lei, mandamento, instrução) do Eterno é perfeita, e restaura a vida! (Sl 19:7)

Não existe amor sem obediência, da mesma forma que a fé é morta se não for acompanhada por boas obras (Tg 2:17). Martinho Lutero (pai do protestantismo) ao se deparar com este texto de Tiago, não conseguiu encaixá-lo em sua recém formada teologia. Ele sugeriu que o livro de Tiago fosse retirado do Novo Testamento, apelidando-o de “epístola de palha”. Mal sabia Lutero que a palavra Fé, em hebraico, é  אֲמָנָה (emuná), que significa também OBEDIÊNCIA, ou FIDELIDADE. Dessa forma, é  impossível obedecer a D-us sem expressar esta obediência através de frutos, ou seja, boas obras. Muitos crêem que por terem confessado Yeshua em público, e repetido a oração do pastor, herdam de forma INCONDICIONAL a salvação. Mas não é este o princípio das escrituras, muito menos o que o próprio Yeshua ensinou. A salvação é um dom GRATUITO, concedido mediante a GRAÇA DE D-US em um momento onde não tínhamos nenhum fruto de justiça a D-us. Porém, uma vez alcançado pela graça do Eterno, a falta de santidade e/ou boas obras em nossas vidas podem comprometê-la. Yeshua adverte fortemente alguns judeus religiosos de sua época por não estarem produzindo bons frutos (boas obras). Eles se baseavam em um pensamento muito comum em Israel entre os séculos III a.C e III d.C chamado de “Teologia de Sião”. Este pensamento defendia a ideia de que Israel seria poupado e abençoado por D-us de forma INCONDICIONAL, pelo simples fato de Abraão (o primeiro judeu) e sua descendência terem sido escolhidos. Alguns profetas de Israel já haviam exortado o povo quanto a essa postura, tal como Miquéias: ”

“Ouvi, agora, isto, vós, cabeças de Jacó, e vós, chefes da casa de Israel, que abominais o juízo, e perverteis tudo o que é direito, e edificais a Sião com sangue e a Jerusalém, com perversidade. Os seus cabeças dão as sentenças por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá. Portanto, por causa de vós, Sião será lavrada como um campo, e Jerusalém se tornará em montões de ruínas, e o monte do templo, numa colina coberta de mato.” (Mq 3:9-12)

Vejamos ainda como Yeshua lida com essa atitude: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer entre vós mesmos: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu vos afirmo que destas pedras D-us pode suscitar filhos a Abraão. E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produzir bom fruto é cortada e lançada ao fogo.” (Lc 3:7-9). Se por um lado o cristianismo desenvolveu uma teologia de “salvação incondicional”, alguns círculos judaicos já haviam desenvolvido uma versão similar séculos antes.

“Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa (…)” (Dt 6:6-7)

Mas como podemos produzir bons frutos para o Senhor? Como conduzir nossas vidas de forma agradável a D-us? Será que a simples obediência aos mandamentos garante a produção de frutos aceitáveis ao Pai? A resposta é não! Por este motivo Israel, mesmo com os 613 mandamentos da Torá, não tem automaticamente os frutos de obediência garantidos. É por isso que apenas a obediência não consegue por si só produzir frutos. Amor e obediência devem andar juntos. Aliás, a obediência sem amor produz frutos, mas estes frutos são mortos. O próprio Yeshua, em João cap. 15, ensina para a pessoa que já está liberta, como produzir bons frutos que serão aceitos por D-us: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado, permaneceis em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar (bons frutos), se não permaneceres em mim. Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanecer em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15:3-5). Não obedeço para ser salvo, obedeço por que SOU salvo. É bem diferente!

Que possamos sempre ter na mente e no coração as palavras do Mashiach Yeshua, para produzirmos bons e aceitáveis frutos ao senhor.

Autor:

Nascido em 1977, Matheus é descendente de Judeus com origem na Itália e em Portugal. É graduado em Comunicação Social (PUC-MG) tendo também estudado teologia com ênfase em Estudos Judaicos (EUA) e Hebraico e Cultura Judaica (Israel). Atua como professor na Sinagoga Har Tzion, em Belo Horizonte, desde 2001. Atualmente, é vice-presidente do Ministério Ensinando de Sião – Brasil, diretor do CATES (Centro Avançado de Teologia Ensinando de Sião), da TVSIAO.COM e um dos líderes da Sinagoga Har Tzion. Matheus é casado com Tatiane e tem dois lindos filhos, Daniel e Benjamin. (facebook.com/mzandonna)

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